Sol Preto, 2018
Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre

                                                                                                                                         




[PT] Em 1919, uma expedição científica britânica chega a cidade de Sobral, no Ceará, para a documentação de um eclipse solar. Durante um mês, os astrônomos se instalaram na cidade a fim de realizarem o experimento fotográfico que ficou conhecido pela comprovação da Teoria da Relatividade Geral de Einstein. Sol Preto parte desse acontecimento científico, visto sob a ótica dos habitantes de Sobral.

Em meio à religiosidade e superstições locais, espalhou-se a suspeita de que o eclipse anunciaria o fim do mundo, pestes e inundações. O choque entre o avanço do conhecimento científico e o atraso socio-econômico local é investigado no video gravado em Sobral, explorando as coleções do Museu do Eclipse e do Museu Dom José. Através da linguagem documental, a história é narrada por dois repentistas locais, que improvisam versos a respeito da expedição e do fenômeno, relativizando relações de poder e urgências sociais. A tradição oral é usada então como artifício narrativo mítico, onde fatos, rumores e invenções se fundem na reconstituição da história.

Esculturas, objetos, impressões e iluminação formam uma única instalação que compõe a abordagem museológica – com suas contradições e finalidades – do que seria um museu do eclipse, investigando antes de tudo o que significa destinar um aparato institucional a um fenômeno natural. Reproduções de duas pedras sagradas incas representando o sol e a lua, que foram achadas em uma fazenda no interior do Ceará em 1926, estão lado a lado de monocromias, reproduções de imagens documentais, manipulações da luz artificial e natural, materiais encontrados e transcrições de notícias da época formando um só vocabulário que é arranjado a partir de relações específicas com a arquitetura do espaço expositivo. Como um mesmo conjunto de palavras que podem formar frases e sugerir sentidos distintos, as composições de materiais são re-combinadas de uma montagem do projeto para outra, podendo ter elementos incluídos, substituídos ou modificados. Essa atitude vem de um interesse em lembrar que a história só "se" escreve a partir do exercício de autoridade e de tomadas de decisão, estando sempre passíveis de revisão. Assim como a ciência, que se desenrola no tempo a partir de sucessivos desbancamentos de teoria em teoria, a história se constrói gradativamente como um campo de projeção de futuro, onde sempre haverá tempo suficiente para que formulações definitivas, as deixem de ser.

O eclipse de Sobral provocou uma mudança no cerne do conhecido para além de uma nova teoria: a constatação de que o real independe de nós. Uma certeza que pulsa cada vez mais alto – em um século de ressaca e violência ecológica desde o eclipse, presságios apocalípticos se tornaram não só possíveis, como lógicos. Conseguimos imaginar nitidamente nós, humanos, fora da foto. E se pensarmos realidade como aquela coisa que, mesmo depois que paramos de acreditar, ainda persiste; o que dizer da ficção? Não seria a ficção, a construção de uma realidade que enfim necessita de nós? Uma realidade que não nos é indiferente, na qual eu faço parte, e sem mim não há ela? Não seria essa vontade de pertencer ao real, o quê nos leva à tantas ficções; religiosas, científicas, místicas, artísticas? Mas se for mesmo este o caso, devemos então ter cuidado com o conforto que nos acolhe dentro de uma ficção. Pois, gradualmente, ele vai nos fazendo esquecer os limites de sua construção, lentamente ficcionalizando uma veracidade própria, e aos poucos nos fazendo acreditar na imprescindibilidade da nossa crença.

(trecho do ensaio Avançar no Escuro, Daniel Frota, 2017)

***
Instalação: vidro, pó de carvão, espuma acústica, pó de toner, gesso, ferro, alumínio, MDF, esteira de palha, litogravura, tinta offset, terra, cola PVA, giz, lâmpada LED tubular, papel fotográfico, embalagem de alumínio, carpete, video HD, estéreo, cor, 23 min, publicação, programação de sistema de iluminação, refletores, gelatina amber; dimensões variáveis.

/////////

[EN] In 1919, a British scientific expedition arrives in the city of Sobral in the northeast of Brazil, for the documentation of a solar eclipse. During a month, astronomers settled in the city to perform the photographic experiment that was known to prove Einstein’s Theory of General Relativity. Sol Preto starts from this scientific event, seen from the perspective of the inhabitants of Sobral.

The suspicion that the eclipse would herald the end of the world, plagues and floods spread in the midst of local religiosity and superstition. The conflict between the progress of scientific knowledge and the local socio-economical backwardness is investigated in the video recorded in Sobral, exploring the collections of the Museum of the Eclipse and Museum Dom José. Using a documentary approach, the history in narrated by two local musicians that improvise verses about the expedition and the phenomenon, relativizing power relations and social urgencies. The oral tradition is used then as a mythic narrative device, through which facts, rumors and inventions are merged in the reconstitution of the history.

Sculptures, objects, prints and lighting form one instalation that composes the museological approach - with its contradictions and goals - on what a museum of the eclipse could be, investigating first what means to apply an institutional apparatus on a natural phenomenon. Reproductions of two sacred Inca rocks representing the sun and the moon, that were found in a farm near Sobral in 1926, are together with monochromes, reproduction of archival imagery, manipulations of natural and artificial light, found materials and transcriptions of news of the local newspaper, forming a vocabulary that is arranged based on specific relation with the architecture of the exhibition space. Like the same group of words that can form multiple sentences and suggest multiple senses, the compositions of materials are re-combined according to each manifestation of the project, where elements can be included, replaced or modified. This attitude comes from the aim of remembering history only writes “itself” through the exercise of authority and decision making, being always open to revision. Like science, that unrolls in time by sucessive undoings from theory to theory, history is gradually built as a field for future projection, where there will always be enough time for definite formulations be proved otherwise.

***
Instalation: glass, charcoal powder, acustic foam, toner powder, plaster, iron, aluminum, MDF, straw mat, litograph, offset ink, soil, PVA glue, chalk, tubular LED lamps, photographic paper, aluminum foil, carpet, video HD, stereo, color, 23 min, publication, light system programming, amber gelatin; variable dimensions.